BLOG - Atrás de Atrás dos Olhos - 6 - Tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Tá, tá

Atualizado: 13 de Mai de 2020


Tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Tá, tá. Tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Tá, tá. A batucada que acompanha todo o processo vai gerando uma lógica paralela e as peças vão se costurando com uma naturalidade que arrepia. Ritmo, tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Ritmo que vem de coração batendo, de respiração compassada, de piscadas sequenciais, de um fluxo essencial que tem tudo de humano, tanto na lógica medida quanto no caos aparentemente aleatório, mas muitas vezes completamente proposital.

Não, não estou falando do show da banda de Maracatu no NECUP no último sábado, nem de mais um bloco carnavalesco altamente contagiante ensaiando em algum quintal aqui perto de casa. Essa percussão que grita em nossas manifestações musicais, nos quintais de samba, nos botecos e rodas de capoeira é a mesma que retumba no livro “Falar” de Edmundo Novaes, naquele espetáculo visceral de teatro que une vodca com noite e volúpia, no último filme Blade Runner e naquele painel pintado na parede de uma casa historicamente descascada.

Obviamente que estou falando principalmente do processo de edição do Atrás dos Olhos, na qual me debruço e me deleito atualmente e onde o ritmo é a essência e a matriz, mas também falo de qualquer processo criativo enquanto ele acontece. Porque no fundo a arte fala com os sentidos e o ritmo é a linguagem dos sentidos, como se tudo estivesse já escrito no DNA da natureza e nossa função de criadores fosse achar, atrair e extrair esse ritmo dos elementos.

Durante as filmagens do Atrás dos Olhos, enquanto montávamos uma cena noturna altamente complexa, de um lual, nos poucos momentos em que eu me sentei naquele dia, me vi no papel de expectador por um momento e fiquei observando tudo, como se assistisse um filme sobre um filme.

Nesse momento, como se entrasse em uma dobra espaço-temporal, enxerguei um balé orgânico e visceral onde Daniel Roscoe dançava, balançando um enorme galho em frente a um refletor, Marco Aurélio carregava um HMI nas costas como um viking carregando uma cabeça de Urso, Sotero cortava bambus com a agilidade de um ninja, Marney flutuava enquanto acendia velas em copos pendurados nas árvores, Suzana, como um flash, evoluía com uma caixa de isopor, distribuindo sanduíches e sorrisos, a Libéria distribuía água enquanto, líquida, dançava, o Laly, como um regente louco, escrevia loucamente sob a luz de uma lanterna improvisada e a Débora corria desesperada para achar um figurino para entrar em cena de última hora.

No centro da cena, Teka e Cioletti explodiam em radiações de humor, enquanto ensaiavam uma música recém-composta, Raíssa e Renata reluziam e compunham com o fogo a iluminação da cena, Euber dançava em um vai e vem desengonçado com os figurantes, coreografando e compondo, Pedreiro coreografava suas lentes de medusa, em um pas de deux desengonçado com o Bailarino Dennis, Cocão tentava convencer uma cigarra soprano que a deixa dela não era agora, Gabi revolucionava olhos e bocas com seu toque mágico e essencial, o Rafa fazia boca a boca em alguma luz que queimara, a Rafa figurinava o figurino dos figurantes imprevistos, a Fernanda e a Lu figuravam de improviso e o Glênio registrava em lentes e chips essa orgia toda.

E assim, em um lampejo, em um flash eufórico, a poesia foi se construindo na minha frente. As tintas se misturando, os tambores se comunicando, os corpos se movendo em dança. Ritmo.

Tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Tá, tá. Tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Tá, tá. Em algum livro de cinematografia alguém disse uma vez que o filme é do diretor. Naquele momento, enquanto eu abstraía na plateia, eu via um tabuleiro de xadrez enquanto eu, peão, esperava a vez de entrar em cena. E tudo o que se projetava na minha frente era a síntese de corpos em um processo vivo de construção. Ritmo. Tan, tan, tan. Tum, tum, tum. Tá, tá. Tan, tan, tan. Tum, tum, tum. Tá, tá.

E o filme se faz do ritmo. Tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Tá, tá. Tan, tan, tan. Tun, tun, tun. Tá, tá.


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