VIAJANDO NA COVID



Eu tava meio na dúvida se contava aqui nossa experiência de viagem em tempos de pandemia porque podia parecer que era um incentivo prá sair de casa, quando o grande remédio ainda é o clássico trinômio isolamento-máscara-informação. Só que como tá todo mundo fritando o cérebro em casa, depressivo, se sentido o pior tomate da salada, com os ossos mofando enquanto a Globo repete sua décima novela, aí eu senti na obrigação de fazer alguma coisa a respeito.

E como ainda temos no mínimo uns seis meses a um ano de pandemia/máscaras/isolamento acho que temos que começar a encarar com mais maturidade e menos medo essa vida de bunker, sem abusos, mas também sem ter que ficar trancafiado prá sempre, já que agora pelo menos conhecemos um pouco melhor o inimigo.

E foi pensando nisso que resolvemos arriscar nossa primeira viagem prá praia em tempos pandêmicos:

A VIAGEM

Definitivamente, viajar tem que ser de carro. Se precisar, aluga um carro ou rouba um. Lembre-se, isso é uma emergência e, em tempos obscuros, todo esforço vale para um pouco mais de garantia de vida.

Se for emergência, trabalho, caso de vida ou morte, tudo bem, pega um avião e prende a respiração durante o voo, mas, caso contrário, carro. Viajar de ônibus prá praia também é mais ou menos equivalente a passar a noite em uma balada na “Obra” com duzentas pessoas lá dentro, bebendo, pulando suando, cuspindo baba contaminada para todos os lados.

**(prá quem não conhece “A Obra” é uma boate de BH em um porão, sem janelas, com uma única entrada minúscula, em uma área de 10x10, que toca só rock’n’roll de qualidade e música específica para dançar até se acabar. Pois é.).

Além disso, se viajar de ônibus ou avião provavelmente não vai conseguir levar o kit de sobrevivência e isolamento na praia (basicamente, comidas para cozinhar em casa) e vai ter que fazer compras, rodar por supermercados mau servidos e bagunçados ou comer em restaurantes com todas as incógnitas em seus processos culinários.

De preferência, viaje para lugares mais próximos, que você consiga chegar no mesmo dia, pois mesmo que você leve comidinhas prá viagem, você vai ter eventualmente que parar para aquela mijadinha estratégica. No nosso caso, fomos prá Arraial do Cabo, que dá uns 575 Km, ou seja, umas nove a dez horas de viagem, pelo menos duas mijadas, outras esticadas de perna e um lanche.

Considere também que bares e restaurantes de estrada recebem o dia todo gente de todos os lados, de todos tipos, sabores e inteligências (daqueles que acham que máscara é coisa de viado, que a terra é plana e que Bolsonaro é um ser humano viável), além de serem focos de caminhoneiros, seres tradicionalmente exportadores de vírus pelo país.

Caso for parar, analise a quantidade de carros parados na frente do restaurante e se ele tem mesas na área externa. Se tem muito carro, passa voando, se tiver dois, três carros, para e analisa. Tá ventilado, não tem muita gente, tem mesinhas do lado de fora, não tem uma placa informando “temos banheiros limpos” (acredite, existe e muito), pode parar.

No banheiro: entre, lave as mãos, feche a torneira com o papel caso ela não feche automaticamente. Alivie-se com prazer, porque isso é bom em qualquer lugar, lave as mãos, seque as mãos e feche a torneira com o papel. Guarde o papel prá abrir e fechar a porta, se for o caso. Secador de mão de vapor quente é péssimo nesse sentido. Se não tem papel, álcool gel aos montes nas mãos ao entrar no carro.

Se puder evitar de comer nessas paradas, evite, senão, procure coisas quentes (peça prá aquecer no micro-ondas e se tiver morno peça prá aquecer novamente). Lembre-se: o vírus morre em temperaturas acima de 65 graus. Self-service e comida nesses lugares é meio suicida pois a comida esfria, a pessoa chega morrendo de fome e começa a salivar, espirrar, pega na colher de servir, conversa, cospe na comida e por aí vai. Salada então, que não é aquecida, pode esquecer, pois não há cozinheiro do mundo que vai ficar lavando salada, folha por folha, com água sanitária. Ainda mais cozinheiro de beira de estrada (sem preconceitos. Rerere)

Consulte também antes de sair todos os pedágios que vai ter que pagar no caminho e deixe separado o valor certinho para cada um, de preferência num saquinho daqueles de chup-chup, prá não ter que pegar em dinheiro. Lembre-se, o dinheiro também é um queridinho do vírus (e é vilão em qualquer circunstância nesses tempos pandêmicos) e os atendentes de pedágio pegam nele o dia inteiro, vindo de todo o país e cheios daquelas cepas bombadas de vírus que passam por Cuiabá, a 46 graus e depois por Curitiba, a 3 graus negativos e chegam ali turbinados, poderosos e resistentes a tudo.

Máscara na hora de abrir a janela para pagar e álcool nas mãos, caso tenha mesmo que pegar no troco ou no papelzinho do pedágio (que aliás você pode e deve dispensar).

O QUE LEVAR

Tudo. A regra é: o que fazer para não ter que sair de casa de jeito nenhum? Ou seja, isopor cheio de carnes, arroz, feijão, legumes, frutas, cervejas, tira-gostos, pães, queijo, presunto. Enfim, tudo como se estivesse em casa mais o acréscimo para as festinhas caso tenham mesmo que ficar trancados em casa com medo do ataque alucinado de banhistas sem máscaras.

Leve litros de álcool gel e spray, máscaras aos montes, um notebook cheio de filmes e cabo de HDMI para ligar o note na TV e ver os filmes de forma mais decente. Pipoca e refri também salvam nos momentos-filme. Baralho e joguinhos também salvam a vida.

Mas o mais importante é já ir considerando que pode acontecer de não sair de casa de jeito nenhum, que as praias podem estar lotadas e todo mundo nas ruas vai estar tossindo desesperadamente em nossas caras, sem máscaras. Assim, tudo o que se fizer além disso já é no mínimo maravilhoso.

HOSPEDAGEM

Isso na verdade foi o que mais animou a gente prá viajar. Alugamos uma quitinete, quarto e sala, na beira da praia, no preço que pagaríamos por uma pousada e levamos tudo o que iríamos comer pra cozinhar no período em que ficamos lá. Só aí já garantimos que não teríamos ninguém esbarrando na gente o dia todo, como é o caso de hotéis e pousadas, entrando no quarto, dividindo espaços e nem teríamos que comer nada que nós mesmo não tivéssemos comprado, desinfetado, lavado e cozinhado.

Ao chegar lá, demos uma higienizada geral e pronto. A casa era nossa. Se você viajar com mais gente então, fica ainda mais barato que pousada e hoje em dia se acha casinhas, quitinetes ou mesmos espaços maiores para alugar em qualquer lugar. Nesse caso o prédio tinha área de lazer com piscina, churrasqueira e jacuzzi (que não funcionava) e tivemos cuidado de ir na segunda para voltar no sábado, garantindo que não teria muita gente no meio da semana, além de achar preços melhores.

Em semanas antes de feriados emendados é ótimo também pois ninguém viaja nesses dias, pois ficam guardando o dinheiro e os dias de folga prá viajar nos feriados.

A praia, obviamente, estava cheia, afinal de contas, é Rio de Janeiro, estado do molejo, da malandragem e do prazer pela vida, mas como toda horda de animais que se preze, todo mundo ficava amontoado no meio da praia, obviamente sem máscaras e se esbarrando e se esfregando, como é o ritual normal em praias.

Aliás, esqueci de dizer que ficamos na Prainha, em Arraial do Cabo, que não é tão pequena, mas tem esse nome porque lá tem uma praia que se chama Praia Grande, que é realmente muuuuiiitto grande. Então, geralmente na Prainha as pontas da praia ficavam vazias e nós, já cientes disso, escolhemos um apartamento localizado mais no canto da praia.

A Praia Grande também é perfeita pois a gente caminhou por ela por quilômetros sem encontrar ninguém, pois a horda urbana sem máscara fica, obviamente, nos primeiros cem metros da praia (se exibindo, se esbarrando, se esfregando, como deve ser).

AS TENTAÇÕES

Obviamente não resistimos a algumas tentações e acabamos comendo um peixe em um restaurante, por exemplo. Prá isso a nossa estratégia foi avaliar todos os restaurantes da praia para identificar qual fica mais vazio e em que horários. Assim, no quinto dia de praia, sentamos em um restaurante na última ponta da praia, na mesa mais distante, com álcool spray estratégico para dar geral em pratos e talheres e comemos um dos peixes mais saborosos que já experimentamos em praias.

Obviamente tomamos cervejas (como resistir a essa tentação também?) e no final já estávamos escorregando nos cuidados, abraçando o garçom, indo ao banheiro sem máscara, dançando bundalelê. Brincadeirinha. Rerere. Quer dizer, só a parte do bundalelê.

Outra tentação são as possibilidades de amizades que vão aparecendo na viagem, que são um dos grandes prazeres de se viajar, mas nesse quesito resistimos bravamente, evitando prolongar os assuntos e ficando sempre de longe.

Passear no meio da muvuca e assistir aquela gente bronzeada mostrando seu valor, brasileirando-se, sensualizando e viralizando (rarara, nos dois sentidos) também é uma tentação que temos obrigatoriamente que evitar. O truque é passear de máscara na beira do mar, água nas canelas, longe e perto ao mesmo tempo.

ISOLAMENTO SEMPRE

Prá se ter uma ideia, teve um tiroteio na praia (que se chama Prainha, ou seja, não é muito grande) e nós nem ficamos sabendo, de tão isolados que nós estávamos ficando.

Um certo dia nós tentamos ir a uma praia, que se chama Praia do Forno e que tá na lista das praias mais bonitas do Brasil. Limpíssima, água azulzinha com uma mata preservada em volta e que esteve fechada durante a quarentena. Até compramos nadadeiras novas prá mergulhar lá e eles haviam nos informado que era possível chegar lá por taxi-boat.

Quando chegamos lá, fomos “atacados” por uma aglomeração de umas 50 pessoas oferecendo o tal do taxi-boat, a grande maioria sem máscaras. Nem abrimos a janela do carro prá perguntar nada, só fomos dando a volta devagarzinho, dando tchauzinhos e voltamos correndo prá casa. Deu até coceira só de ver aquilo.

Mas tava tudo certo. Quando saímos de BH os planos eram ficar o tempo todo dentro de casa caso necessário, pois só o fato de sair de casa, mudar de ares e ver o mar já seriam prazer suficiente. Mas a gente foi achando os caminhos, observando, sem correr riscos desnecessários. E abrir mão de algumas coisas sempre foi pré-requisito para que a viagem desse certo.

Aí foi assim: churrasco no prédio quando a praia estava muito cheia, passeio pelas praias mais vazias, passeio pelas trilhas vazias, entrar no mar, nadar, voltar para o prédio quando a praia estava cheia, quando tinha que atravessar a praia onde tinha muita gente, caminhar na beira do mar de máscara, ser antipático às vezes, evitando as pessoas, pois nunca se sabe, puxar a orelha do vendedor sem máscara e correr de aglomerações.

No mais, foi nos deliciarmos com aquele marzão, os cheiros, os brilhos, as cores, ver gente, ver tartarugas no mar (vimos muitas), nos divertirmos com nossos medos e cuidados e perceber que a vida tá toda ali, do mesmo jeito, reluzente e provocante, só esperando que esse parênteses provocado pela pandemia se fechem e possamos novamente devorar tudo desse bom que a vida sempre nos reservou. E sem máscaras, por favor.