COVID 07 – O VÍRUS MORA AQUI



- COVID na sua cara!

Joana já corre há uns 20 minutos e tudo o que consegue ouvir é sua própria respiração descompassada, um choro familiar ao fundo e uma frase que se repete na sua cabeça a cada passo que dá.

- COVID na sua cara!

À sua volta, luzes passam como hieróglifos, sinais irreconhecíveis que tremem a cada novo passo que ela dá. Cheiro de chão molhado, luzes de neon refletidas nas poças por onde ela flutua e uma sequência de imagens aleatórias fazem um movimento giratório em sua cabeça e ela não consegue retirar de tudo aquilo o que é real ou imaginado.

O cheiro de sangue não incomoda tanto quanto o cheiro de cocô, e todos os ruídos da cidade, aquele rugido fixo que vem de longe o tempo todo, se perde naquela choramingas frágil que a acompanha, quase no ritmo de sua respiração, e lhe dá energias para não parar de correr.

Vira uma esquina, outra, desce, sobe, passa por um túnel, vira por uma rua mais estreita, e segue em direção a uma rodovia mais iluminada, que a atrai como se fosse um objetivo prévio, mas que ela não faz a menor ideia de qual seja, como se houvesse nela algo de familiar e acolhedor, que a protegesse e ao mesmo tempo lhe desse uma direção.

- COVID na sua cara!

O som dessa frase soa como um martelo na cabeça, como aquela dor de cabeça que teve durante praticamente todo o período de gestação, que surgia sem avisar e ficava lhe cutucando como um alarme durante todo o dia, como se lhe avisasse que a dor lhe seria familiar dali em diante. E foi.

Já meio sem respiração, limpa o sangue que escorre no canto da boca e faz um gesto para limpar a mão na camisola, mas interrompe o movimento e só então se lembra de Daisy. Como se voltasse de um transe, ouve então o seu choro, a sua respiração e o cheiro de cocô e, como uma sonâmbula que é acordada subitamente de seu sonho, sente as pernas tremerem e cai desnorteada e cansada no meio do asfalto.

Cai desajeitada mas antes de chegar ao chão, gira o corpo e seu cotovelo, convocado para agir por instintos que não sabe de onde vêm, entra na frente, recebendo todo o impacto e protegendo o bebê. O sangue e a dor que surgem imediatamente no seu braço, provocados pelo impacto no asfalto, são quase imperceptíveis naquele momento em que todo o seu ser é direcionado para a proteção de Daisy.

Fica deitada assim, no chão por alguns segundos, apenas escutando o coraçãozinho dela, que bate assustado e o seu próprio coração que ainda bate disparado. O choro vai se acalmando à medida que ela se sente acalentada no peito e nos braços da mãe e só então Joana percebe que a rua está molhada, embora não esteja mais chovendo. Joga então o corpo para o lado, segurando o bebê só com um braço e se levanta ainda cambaleante.

Olha para os lados e vê um abrigo de um ponto de ônibus na esquina da rua, debaixo de um poste com uma lâmpada queimada para onde corre e se refugia, tentando se manter o mais oculta possível atrás das colunas do abrigo.

Tira, então, seu seio para fora para dar de mamar para Daisy, e sente que o bico do seio está molhado, como se o leite estivesse vazando. Sai então do abrigo por um momento procurando uma luz e só aí percebe que o seio está molhado de sangue. Limpa então o sangue com a barra da camisola, volta para seu refúgio e só então dá de mamar para o bebê.

- COVID na sua cara!

Ouve novamente o grito e se levanta assustada e se esconde, mas não vê ninguém na rua e só quando percebe que o grito vem de sua cabeça ela se senta novamente. Tenta se acalmar, mas imagens aleatórias vem e voltam na sua cabeça sem que consiga controlar.

Os gritos descontrolados, ele chegando em casa de madrugada, sempre sem máscara, o cheiro de vômito misturado com perfume barato e ela fingindo que está dormindo. Sempre fingia, pois já aprendeu que a violência dele não vem só do álcool ou de sua decadência, mas principalmente de quando ele percebe em Joana a decepção que ela sente pela decadência dele.

Geralmente ele toma um banho para disfarçar os cheiros de sua desmoralização, mas dessa vez, talvez pelo grau de embriaguez, vem direto para o quarto e pega o bebê no colo. Aí de repente ela se esquece todo o cuidado consigo mesma quando vê sua pequena Daisy exposta ao vírus, naquelas mãos imundas e irresponsáveis, que saem de casa todos os dias ignorando os avisos, indo para botecos e prostíbulos, desde que foi mandado prá casa de quarentena.

Se levanta então e com uma força que nem sabia que tinha, arranca Daisy de suas mãos, empurrando-o com toda a sua força, fazendo-o tropeçar na cadeira da penteadeira e cair desajeitadamente no chão.

-Tira essas mãos de COVID de meu bebê – Joana grita.

Humilhado e desnorteado pelo tombo e pela bebida, ele se levanta furioso e antes mesmo que consiga ficar totalmente de pé, lhe acerta um soco no rosto derrubando-a no chão.

- COVID na sua cara!

E avança sobre ela chutando-a com violência, e gritando alucinado. Sem sentir mais nada, Joana apenas protege o bebê, até que puxa uma cadeira ao seu lado e com uma força que ela não sabe de onde vem, joga-a em cima dele, acertando-o no rosto e derrubando-o novamente.

Nesse momento, o mundo à sua volta desaparece e não há mais sons, obstáculos, nada. Tudo gira em torno daquele pequeno corpo em seus braços e começa a correr, correr, o cérebro obliterado por imagens aleatórias de sangue, de gritos, de vozes violentas lhe berrando coisas e aquela frase que lhe repete em eco:

- COVID na sua cara!

Corre então por uns 20, 30 minutos, sem saber para onde ir e sem pensar realmente nisso. Intimamente sabia que acabaria voltando para casa, como voltou das outras vezes, mas nesse momento o controle estava nas mãos de uma mãe que era muito mais forte do que ela sempre foi.

Mais calma agora, protegida pela escuridão do ponto de ônibus, enquanto o bebê mama alheio a tudo, respira fundo, ainda desnorteada e tenta finalmente identificar onde está. Reconhece a Avenida principal, que fica a uns três quilômetros de sua casa e, logo em frente ao ponto de ônibus onde se esconde, reconhece uma casa estranhamente familiar.

Por algum motivo que não sabe explicar, sente que a casa lhe atrai. Se levanta, atravessa a rua e se aproxima da placa da casa onde finalmente lê “CENTRO ESPECIALIZADO DE ATENDIMENTO À MULHER – BENVINDA. 24 horas”. Aí, no meio de todo o cansaço, desespero, dor e desalento, sorri, feliz por um momento consigo mesma, ao perceber que seu desespero, aparentemente descontrolado, tinha uma meta.

-É mulher... cê tá mudada... não manda mais nem nocê mesma. – Fala alto, como se isso fosse ajudar na sua decisão.

Termina de dar de mamar ao bebê e, ajeitando sua camisola toda manchada de sangue, arruma o cabelo tentando ficar mais apresentável e toca a campainha, com um sorriso no rosto que mistura alívio com expectativa.

- Já deu né? – Argumenta consigo mesma, chorando em desabafo.

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