COVID 02 - POR QUE SE O VÍRUS É A DOENÇA, JESUS É O ANTIBIÓTICO!


- Porque Jesus clamou, do alto do Monte Abissal: “Nessa gente não pega nem um mal!”

Wladimir respira e dá uma olhada com orgulho no público, que já ocupava mais da metade da igreja, graças a seu árduo trabalho de recuperação dos assustados fiéis que haviam se afastado amedrontados pelo vírus desconhecido.

- Porque quem está com ele não foge, quem está com ele não esconde, quem está com ele enfrenta, com todo sangue e o suor que Jesus despejou em nós em seu calvário!

Dá mais uma pausa estratégica e sente um pequeno calafrio na espinha quando se lembra das três semanas que passou internado escondido em uma clínica da cidade vizinha, tremendo e com crises de falta de respiração, em um duro tratamento contra o vírus, enquanto era substituído no templo pelo seu sobrinho Albertino, um menino franzino e cheio de espinhas na cara, que mal cabia no terno do casamento de seu pai.

Às vezes até o próprio Wladimir se assustava com sua esperteza pois ele teve uma espécie de premonição de que se alguém sequer desconfiasse de que ele havia sido contaminado, todos seus fiéis iriam abandoná-lo imediatamente e as doações que recebia, e que estavam cada dia mais generosas, iriam minguar. Por isso inventou uma viagem de auto-catequização e sumiu até que voltou, agora imune, para tentar salvar sua fonte de recursos.

- Porque ele é força, ele é muralha, ele é proteção e não é o vírus que o capeta criou prá tentar o coração dessa gente sem fé, que vai derrubar a força do senhor! Jesus Cristo tem poder!

E todos respondem se ajoelhando com fervor.

- Amém. Amém nós todos. Só Jesus Cristo tem poder.

- E ele clama a todos os que não temem, porque não é a saliva maligna, o cuspe do capeta, o toque do coisa ruim é que vão romper a muralha do amor de nosso Senhor Jesus Cristo.

À medida que vai falando vai passando os olhos com orgulho pelo público, muitos com máscaras, mas a grande maioria sem proteção nenhuma e amontoados em frente ao palco enquanto repetem seus mantras e colocam suas contribuições em pequenas marmitas de alumínio que seu sobrinho Albertino passa pelos fiéis.

- “Só Jesus tem poder”, “Em nome de Jesus”, “Amém”.

Haviam muitas caras novas, já que ele havia sido o único que tivera peito para encarar os “Gestores do Capeta” e abrir a igreja às escondidas, controlando a entrada pelas portas dos fundos e eliminando os microfones para não chamar a atenção.

- E não tem que se esconder, porque o poder do Senhor é capaz de tudo. Porque aqui ninguém teme, porque tem Jesus no coração. E quem não teme, não se esconde atrás de máscaras, não se afasta, mas se abraça, porque Jesus disse “Amontoai-vos e tocai-vos, porque a minha força vem da força que todos juntos tem”.

Nesse momento, vários empolgados arrancam suas máscaras e vão se aproximando do palco, e, embora alguns resistam a princípio, ao ver a adesão dos outros acabam se aproximando também. Todos se aproximam, com exceção de uma morena alta e bonita que fica sozinha no fundo do salão.

- Aproxime-se irmã, junte-se a todos, porque todo mundo junto é mais Jesus dentro da gente e mais Jesus dentro da gente é o Diabo cada vez mais longe de nós.

Timidamente a mulher se aproxima, mas fica ainda afastada por duas fileiras de cadeiras.

- Chegue mais irmã, porque prá quem tá protegido por Jesus não tem vírus, não tem doença, não tem invenção desses rebentos do capeta que vai afligir quem tem Deus no coração.

Ela se aproxima mais um pouco e Wladimir, agora empolgado com a beleza e o corpo da mulher, desce do palco e vai até ela, puxando-a para cima do palco.

- Venha até mim irmã, despeja em nós seu coração, porque as escrituras, o apocalipse, os Deuteronômios, os livros de Jó já prediziam que o capeta viria na forma escondida de um bicho malicioso, que engana os olhos do homem, mas que não escapa da esperteza de Deus! Despeja irmã, despeja em nós seu testemunho.

Timidamente a mulher sobe ao palco.

- Despeja irmã, despeja em nós o que você tem em seu coração!!

- Eu tenho o vírus.

Imediatamente todos fazem silêncio se afastam do palco assustados e Wladimir, empolgado agora pela inesperada chance de valorizar o seu show, abraça a mulher que, resistindo a princípio, acaba se deixando levar em um choro fragilizado.

- Não se afastem não, não se afastem não, porque quem tem Jesus no coração é forte como um leão é não é um virusinho que vai amedrontar não. Não se afastem não, quem tem Deus no coração, quem andou nos montes da discórdia e voltou, quem subiu na cruz com Jesus e com ele orou, não foge de quem Deus colocou em suas mãos.

Todos olham para ele entre tímidos e assustados com sua coragem, até que ele, empolgado e aproveitando-se da mulher, a abraça novamente e começa a beijá-la, a princípio no rosto e depois na boca.

- Vem Jesus, me enche de seu poder, porque essa força maligna não vai me afetar! O mal que o capeta despeja em saliva, em cuspe demoníaco, eu absorvo e devolvo em Cristo. Porque se o vírus é a doença, Jesus é o antibiótico. Esse corpo que te aflige é de onde tirarei meu sustento em Cristo. Aleluia, irmãos, vírus não!

Nesse momento todos se aproximam novamente do altar e começam a orar, alguns chorando e repetindo seus mantras, ajoelhando-se e elevando as mãos para o céu em devoção. Fragilizada e emocionada, a mulher se deixa abraçar e beijar, enquanto Wladimir passa a mão pelo seu corpo, simulando um descarrego e uma limpeza espiritual.

Duas horas mais tarde, Wladimir está deitado na cama com a mulher, fumando um cigarro, enquanto ela sorri demonstrando uma felicidade renovada. Wladimir percebe, então, seu olhar de felicidade.

- Viu irmã, que não existe mal, não há doença, não há peste, não há coronavírus que pode deter a poderosa mão do senhor.

- Não é coronavírus.

- O Quê?

- O meu vírus. Não é o corona. É AIDS.

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